Vida de pobre, morte de pobre

Philippe de Champaigne. Still Life With a Skull, c. 1671. Representação da vida, da morte e do tempo.

*Por Jorge Alberto

Já ouvi que depois de uma certa idade é comum os amigos de infância irem morrendo. Uns aos 80, outros aos 70 e creio que até por uns 60 seja comum. Pois bem, estou me sentindo nessa fase. O fato mais dramático é que estou sentindo isso aos 20 e poucos.

Esses dias mais um amigo morreu. Gente boa, tranquilo, mas estava assaltando. Um tiro da polícia entrou nas costas e saiu no peito. Os vizinhos lamentam, mas não muito, afinal ele era “envolvido”. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi essa história.

Sempre fui pobre, tive amigos pobres e morei em lugares pobres. Pior que encarar esse fato é mascará-lo com palavras bonitas que não representam minha realidade. Sou rico de amor, de sonhos, de família, mas pobre de transporte, segurança, cidadania. E começo a pensar o quanto isso tudo tem a ver com a quantidade de amigos mortos, amigos assaltantes, amigos sub-empregados, amigos com dificuldades financeiras, amigos que abandonaram a escola, amigas que engravidaram cedo demais ou que andam engravidando demais e todo tipo de perfil marginalizado pela sociedade.

Amigo médico? Não tenho. Engenheiro? Também não. Celebridade? Nenhum.  Advogado? Dois ou Três. Que fez um doutorado? Três talvez. Algum deles é meu vizinho? Não. Só posso chegar a duas possibilidades para explicar isso. Ou as pessoas que nascem nas favelas e periferias têm “naturalmente” uma vocação para o crime, para a vagabundagem, para desenvolver trabalhos chatos e mal remunerados, ou as oportunidades do mundo estão muito mal divididas.

Como não sou adepto da ideologia nazista, fico com a segunda opção e vou tentar te demonstrar o quanto ela é verdadeira.

Sei que você deve ter em mente que cada um constrói sua história com esforço próprio e que conhece muita gente que mesmo vindo “de baixo” venceu na vida e não “deu pra coisa errada”. Acho até que se você me conhecesse, e conhecesse a história da minha família, também ia me colocar nesse grupo, mas não seria muita perversidade enxergar um mundo inteirinho a partir de exceções?

É óbvio que existe juiz negro, médico que veio da favela, empresário bem sucedido que já passou fome, mulher ocupando espaços importantes de poder... e todo tipo de exemplo possível para mostrar que a determinação individual realmente faz a diferença. Contudo, o engano (ora ocasional, ora proposital) está na relação que se estabelece entre esses casos isolados e o estado ordinário da sociedade em que vivemos.

Na sociedade em que vivemos crianças são permanentemente ensinadas a reproduzir a violência. Adolescentes são estimulados a seguir padrões de beleza, consumo e comportamento difíceis de serem alcançados e pouco válidos em termos de valores. Adultos precisam sobreviver, garantir a sobrevivência dos seus e ainda aproveitar o que der, como der da vida. Essa é a mesma sociedade em que assassinatos, sequestros, assaltos e crimes de toda a natureza são cometidos cotidianamente. É a sociedade em que o professor ensina, o aluno aprende, e nenhum dos dois é capaz de entender verdadeiramente para que serve a maior parte daquele conteúdo. Também é a sociedade em que maridos espancam mulheres para resolver problemas conjugais. Héteros matam gays simplesmente por serem gays. Brancos discriminam negros, as vezes em uma partida de futebol, outras na condição do policial que atira na pessoa de “pele suspeita” para depois perguntar. Uma sociedade em que tudo tem um preço: saúde, segurança, educação... portanto, uma sociedade desde sempre dividida entre ricos e pobres.

Quando falamos dessa divisão, o primeiro aspecto que pensamos é no financeiro. Faz sentido, já que vivemos em um mundo capitalista. Mas, se avaliarmos com mais profundidade, veremos que a questão fundamental que separa as classes populares das abastadas está mais nas perspectivas de vida de cada uma, que efetivamente no bolso.

Por exemplo, dos meus vários amigos envolvidos com o crime. Nenhum deles estudou em uma escola de qualidade. Nenhum deles viajou para o exterior. Nenhum deles frequentou uma universidade. Todos moram em um local precário de segurança, saúde, cidadania. Todos têm poucas ofertas de atividades culturais como cinemas e teatros. Seus pais tiveram/têm realidades parecidas ou piores. Tudo isso faz com que “obrigatoriamente” eles se envolvam com o crime? Não, de forma alguma. Mas tudo isso faz com que esse caminho seja uma das principais alternativas oferecidas.

Na favela o bandido é a figura que representa poder, coragem, força. É quem determina a forma de funcionamento da comunidade e é quem é mais respeitado por aquele grupo. Todos que entram, entram sabendo que podem “dançar” a qualquer momento, mas é uma escolha de risco dentro de poucas opções oferecidas. É possível para alguém que nasce nesse meio escolher outro caminho? Óbvio que sim, mas convenhamos que não é a escolha mais óbvia. Nesse ponto que entra a dimensão de vida de cada pessoa.

Estamos permanentemente fazendo escolhas. Cada escolha é baseada em dois fatores. O primeiro fator é a perspectiva individual (e incomparável) de cada um, tal como noções de caráter, índole ou vocações, que supostamente nascem conosco independente de aprendizado. O segundo é tudo que vivemos, sentimos, apreendemos, nossas experiências práticas, nosso repertório de vida. Há muitos debates no campo da psicologia em torno do quanto o primeiro fator influencia de fato uma decisão. Nunca encontrei ninguém que discorde sobre o potencial do segundo.

Nesse sentido, é fundamental considerar que qualquer menino de 9, 10 anos que viva na favela, conhece, muito provavelmente melhor que você, a realidade de um bandido. Sabe o que ele faz, onde mora, como se chama, como chegou naquele posto, com quem se relaciona... Esse mesmo menino passa dificuldades em casa e sonha com o dia que poderá ter seu próprio dinheiro. Se nascesse em outro lugar, talvez pensasse em entrar pra medicina ou engenharia (as duas profissões mais bem remuneradas no país), mas onde ele mora não existe nenhum médico ou engenheiro (eu mesmo até hoje não conheço nenhum), então como ele poderia pensar nessa hipótese?

Não estou dizendo que você deve se tornar um defensor dos criminosos, nem achar justos os atos que cometem. Mas estou dizendo expressamente que ignorar a origem do problema, e simplesmente colocar de um lado os seres humanos bons e do outro os “vagabundos, que buscam vida fácil e não gostam de trabalhar, por isso merecem morrer” só aumenta nosso estado de barbárie.

É necessário ampliar o debate público sobre as origens da criminalidade, sem cair na fácil e infrutífera postura de hostilização do indivíduo com envolvimento nessa área. Precisamos discutir os vácuos causados pelo enfraquecimento de vínculos familiares em nossa sociedade, temos que questionar (e reorganizar) o papel da escola, é de extrema urgência colocar na pauta pública a realidade dos presídios brasileiros, e debater sua função social sem sentimentos de revanchismo e truculência, o mesmo com as polícias, as forças armadas e destacadamente a imprensa.

Não é razoável que tais temáticas sejam tratadas pelos meios de comunicação com banalidade, formando uma opinião pública que tem pavor da violência, ódio aos ditos criminosos, mas que não tem a menor capacidade de ligar nenhum desses episódios com a aplicação de políticas públicas, a responsabilização de agentes públicos ou mesmo o papel individual que cada cidadão cumpre na formação de valores de nossa sociedade. Também não avança muito só tratar com seriedade desses temas durante os episódios de comoção nacional (chacinas, assassinatos incomuns, crimes brutais...).

Enfim, problemas são muitos, soluções não são simples. Vamos combinar que é mais fácil seguir o “mais do mesmo” e fazer coro com essas versões de “bandido bom é bandido morto”, liberando toda nossa raiva e praguejando contra aqueles com quem supostamente nunca olhamos no olho. Um dia podemos perceber que o conhecido que suborna o guarda de trânsito também é bandido, que o tio que inventa informações para pagar menos no imposto de renda idem, que a mãe que discrimina o amiguinho pobre, negro, gay... também está nessa. E com mais um milhão de exemplos, nesse dia talvez entendamos que tod@s temos características boas e ruins, e consequentemente acertamos algumas vezes e erramos outras. É justo nós determinarmos quais erros merecem a morte?


* Jorge Alberto é jornalista e mestrando em políticas públicas
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