O Globo de hoje - Leitura Crítica

Em comunicação temos um campo de estudo conhecido como leitura crítica dos meios de comunicação, em que as ideias de Mario Kaplún se destacam. Trocando em miúdos, é um método proposto de análise crítica dos meios atuais de comunicação em massa, refletindo sobre as diversas facetas dos produtos observados.

De forma muito despretensiosa resolvi analisar hoje (dia 9 de março de 2015), um produto das organizações Globo. Como não havia comprado o jornal impresso, teria maiores dificuldades para sistematizar o conteúdo de vídeo e efetivamente minha área de atuação é a comunicação digital, resolvi tratar do site do jornal O Globo como objeto.

Não abordo o site inteiro. Apenas como método de observação, selecionei o print da primeira página que tod@s têm acesso ao entrar no referido portal. Faço a análise de cada manchete, não analiso a notícia em si, tanto por razões de objetividade, quanto pelo aspecto óbvio de que a manchete representa o conteúdo e impacta muito mais gente em termos de comunicação. Cada número representa uma notícia e sua análise relativa. Trata-se de um trabalho reflexivo, sem verdades absolutas, mas com grandes indicativos sobre posturas adotadas, vamos em frente:


1 – TÍTULO >>> “BRASIL – PT afirma que panelaço fracassou e foi ‘financiado’ pela oposição”
SUBTÍTULO>>> “No domingo, enquanto presidente apelava por coragem para enfrentar a corrupção e defendia o ajuste fiscal, em pronunciamento na TV, pessoas vaiaram, buzinaram e bateram panelas em pelo menos 3 estados e no Distrito Federal.”
- A notícia mais importante destaca um posicionamento do PT sobre o ocorrido. De cara já há algo esquisito. Se o PT afirma que o panelaço fracassou, alguém afirma que foi exitôso. Pela chamada, subentende-se que é algo óbvio para o conjunto dos brasileiros, pois se não fosse, qual seria a relevância de informar que o PT (partido de Dilma) entende que o ato foi equivocado? Para além disso a segunda parte da frase, em que informa que o PT disse que o protesto foi “financiado pela oposição” dialoga com um clichê, que tende a formar a percepção de quem lê de que o PT estaria demonstrando mania de perseguição. Veja bem, no cenário construído pela manchete, há um imenso movimento no Brasil contra Dilma, e o PT só enxerga a oposição nessa história. No subtítulo seguimos com a mesma abordagem. Quando diz que Dilma “apela” já transmite a ideia de desespero, quase uma súplica. Quando contrapõe a informação da pronunciamento com os protestos, estabelece o paralelo que vai ser explorado no decorrer do site: de um lado Dilma desesperada, do outro o povo em protesto. Aqui existe também um fato interessante. No próprio texto reconhecem que houve manifestações em 3 estados (mais Distrito Federal). Ou seja, em um país com 26 estados (mais o Distrito Federal), o que constitui relevância para que tal ato seja a principal manchete da publicação? Podem até dizer que foi nos estados de maior população (menos o Distrito Federal), mas ainda assim, como o jornal teria acesso a pessoas vaiando, buzinando e batendo panelas supostamente em suas casas? Como o jornal teria como identificar se isso foi um movimento de meia dúzia, ou um ato de massas? Todas as manifestações que reunirem pessoas em 3 estados (mais o Distrito Federal) terão cobertura do jornal? Fica nítida a cobertura parcial, em que a suposta legitimidade do protesto é mais construído por algum objetivo da editora de O Globo, que por qualquer acontecimento de impacto na sociedade.

2 - TÍTULO >>> “VÍDEO-Panelaço em bairros de SP”
SUBTÍTULO>>> não tem
- Continuidade de informação da primeira notícia. Complementa o clima que tentam vender de que há uma grande revolta na sociedade.

3 - TÍTULO >>> “VÍDEO-Na Barra, vaias e panelaço”
SUBTÍTULO>>> não tem
- Idem ao anterior

4 - TÍTULO >>> “Leia a íntegra do discurso da presidente”
SUBTÍTULO>>> não tem
- Única notícia relacionada que não assume previamente um ponto de vista e não transmite a ideia de que há uma grande crise no Brasil.

5 - TÍTULO >>> “Dilma vai à TV e pede paciência; várias cidades têm panelaços”
SUBTÍTULO>>> “Presidente culpou ‘crise internacional’ e seca por economia fraca”
- Novamente a perspectiva de uma Dilma desesperada de um lado e o povo no rua do outro. No subtítulo, mais uma versão sobre a defesa atrapalhada de Dilma, afinal ela CULPAR algo é diferente dela tratar, observar, avaliar... escolha de palavras para legitimar a realidade.

6 - TÍTULO >>> “Após protesto, enxurrada de críticas no Facebook de Dilma”
SUBTÍTULO>>> “Pronunciamento da presidente também chegou ao topo do Twitter”
- Antes do protesto não haviam críticas? Entre todos os assuntos que rolaram no Facebook ontem, o mais importante foi a “a enxurrada de protestos contra Dilma”? Se sim, qual o critério adotado?

7 - TÍTULO >>> “Aécio diz que Dilma faltou com a verdade em pronunciamento”
SUBTÍTULO>>> “Presidente do PSDB diz que presidente inventa bodes expiatórios”
- Aécio, que é da oposição à Dilma, disputou e perdeu a presidência para Dilma e passou a campanha eleitoral do ano passado inteira dizendo que Dilma faltava com a verdade. Novamente ele disse que Dilma faltou com a verdade. Enquanto isso, o padeiro segue vendendo pão, galinhas botando ovo e os dias tendo 24 horas, qual a relevância jornalística dessa informação?

8 - TÍTULO >>> “Marta Suplicy diz que Dilma nega responsabilidades e se isola”
SUBTÍTULO>>> “Senadora comenta reação com panelaço à fala da presidente”
- O Senado possui 81 senadores. Cada um desses deve ter uma opinião sobre o ocorrido. Supondo que se tratasse de uma notícia imparcial, qual o critério adotado para tornar possível uma declaração de uma senadora que recentemente rompeu publicamente com Dilma? Talvez se fosse o contrário (Marta defendendo Dilma) até seria relevante, afinal seria algo inesperado, mas da forma como está é gritante a escolha para reforçar a versão de Dilma Geni (“joga pedra na Geni”).

9 - TÍTULO >>> “OPINIÃO RICARDO NOBLAT ”
SUBTÍTULO>>> “Governo Dilma se arrisca a acabar mais cedo”
- O governo SE arrisca... como? Colocando a primeira mulher presidente para dar um declaração no Dia Internacional da Mulher? Não li a matéria para descobrir o que o governo fez de tão grave(nem pretendo), mas está muito transparente a intenção do colunista em atacar o Governo Dilma e justificar o ataque como culpa do próprio governo (que está SE arriscando).

10 - TÍTULO >>> “OPINIÃO MERVAL PEREIRA”
SUBTÍTULO>>> “Panelaço mostra que Dilma não convence”
- Cansaço. Eu aqui pensando sobre o que pode ter sido esse panelaço, e o colunista em questão já determinou e já analisa seus desdobramentos. Para mim o próprio panelaço não convenceu, mas ao que parece, o jornal O Globo não só está convencido, como trabalhou nesse caso com determinação para convencer todos os seus leitores. É mais ou menos a lógica do: “leiam e não precisam pensar, já pensamos por vocês”.

11 - TÍTULO >>> “ANCELMO.COM”
SUBTÍTULO>>> “Sabe tudo de passinho”
- Que simpatia, pena que já estou amargo nesse momento, pois já fui convencido pelas notícias anteriores de que há uma grande crise no país e não tenho mais disposição para o passinho.

12 - TÍTULO >>> “GENTE BOA”
SUBTÍTULO>>> “Casal gay e decote vertiginoso: tudo que rolou na festa de ‘Babilônia’”
- Informação de alta relevância. Coincidentemente ajuda a promover a novela Babilônia, que coincidente é da Rede Globo, que mais coincidentemente ainda pertence ao mesmo grupo de comunicação do jornal O Globo.

13 - TÍTULO >>> “BLOG DO MORENO”
SUBTÍTULO>>> “Câncer institucional”
- De volta à crise. Sempre alerta. O clima é de tensão. Imagino os editores do jornal na seguinte discussão: Câncer institucional? Certamente fala de corrupção, mas não cita o governo no nome. Vamos colocar sem muito destaque, e deixar esse clima no ar sobre o que seria essa tal câncer. O fato de termos falado mal do Governo Dilma em todas as notícias anteriores não vai fazer com que nosso leitor crie nenhum tipo de ligação aqui, afinal somos imparciais.

CONCLUSÃO:

Primeiro é importante dizer que tal reflexão é em torno de uma fotografia de momento. Talvez quando você ler esse texto o site já tenha até outra apresentação. Contudo, é uma análise que nos permite compreender significativas perspectivas em torno do que está publicado. Não existe notícia que não seja editada. Toda edição pressupõe uma escolha. E está óbvio no presente trabalho as escolhas adotadas. Expressamente o site d’O Globo ataca o Governo Dilma. Não estou discutindo aqui o porquê, nem ampliando a avaliação para outras mídias. Estou falando exclusivamente que, em relação ao site que visitei hoje não há qualquer tentativa de imparcialidade. Considerando que o jornal é também uma parte da sociedade é até compreensível, mas infelizmente não é discurso corrente nele, nem em outros meios de comunicação. Importante falar também das não-escolhas. Mais do que a relevância que uma notícia deve ter ao ser publicada, ela traz consigo um custo de oportunidade (todas as outras pautas que não foram tratadas). Pensemos junt@s, segunda-feira, dia seguinte ao Dia Internacional da Mulher. Dia que, entre flores e lutas, motiva atividades por todo o Brasil. Dia em que uma série de pautas importantes ganham (ou deveriam ganhar) visibilidade. Pautas como a desigualdade que ainda existe entre homens e mulheres, o combate à violência doméstica, o enfrentamento às várias formas de machismo... Será que em comparação com isso tudo, o panelaço que algumas pessoas de 3 estados (mais o Distrito Federal) fizeram é mais relevante? Objetivamente para o jornal O Globo é. E com isso, para muito leitor se torna também. Entendeu o poder dos meios de comunicação?? 
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