O que Maria do Rosário e Jean Wyllys têm em comum?

Jean Wyllys. Maria do Rosário. Ele gay. Ela mulher.
Ambos professores e deputados federais. O que mais teriam em comum?
Maria do Rosário é deputada federal. Considerando que dos 513 deputados da Câmara, apenas 46 são deputadas (menos de 10%) e que é a única mulher eleita pelo Rio Grande do Sul (que além dela, elegeu mais 30 deputados homens), esse fato por si só a faz notória.
Jean Wyllys, por sua vez, não fica atrás. Principal voz em defesa dos LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) no Congresso, é o único gay assumido da Casa e foi reeleito com uma votação 10 vezes maior que a anterior.
Ambos são professores, Rosário do Ensino Médio, formada em Pedagogia, Jean de Comunicação, formado em Jornalismo.
Ela do Rio Grande do Sul, ele do Rio de Janeiro.
Defendem juntos, além dos assuntos relacionados às mulheres e aos LGBTs, uma série de pautas consideradas progressistas, como o combate à redução da maioridade penal, o direito à memória e à verdade (investigação de mortes e crimes durante a ditadura), a defesa das políticas de ação afirmativa (cotas) para negros...
Os dois se apresentam como militantes dos direitos humanos, e se reivindicam de esquerda.
Ela do PT, ele do PSOL.
Rosário é ex-ministra de Dilma. Jean, apesar de oposição ao governo, fez campanha para a presidenta no 2º turno.
Durante a eleição tive a oportunidade de presenciar uma cena, que talvez tenha motivado esse texto.
Jean sendo entrevistado e avaliando o governo Dilma. Fez uma série de críticas sobre os assuntos que não avançaram e destacou, óbvio, a questão LGBT. Entre as várias observações, fez questão de citar que o único significativo avanço nessa área era ter Rosário como ministra, que segundo ele não possuía os instrumentos necessários para fazer as coisas acontecerem (no dito popular a caneta), mas tinha sensibilidade e seriedade com os temas relacionados.
Achei um ato de tal grandeza, e desde então tenho acompanhado a trajetória dos dois.
Recentemente nas redes sociais, creio que sem qualquer tipo de combinação, ambos lançaram séries de publicações para desmentir boatos sobre suas atuações.
Esse ponto é outro que têm em comum. Tanto ele, quanto ela, são alvos permanentes de ataques de grupos conservadores, sobretudo na internet.
Já disseram que ele queria obrigar as crianças a fazerem cirurgia de mudança de sexo, já falaram que ela criaria uma lei para tornar reação a assaltos um crime hediondo, já espalharam que ele defendia uma guerra armada contra os evangélicos.
Em 2013 um blogueiro pegou uma foto de Rosário emocionada em alguma solenidade, e utilizou de má fé ao criar uma notícia fake de que se tratava dela chorando após a morte de um criminoso surpreendido pela polícia. Com isso, sua página na internet recebeu uma enxurrada de mensagens de ódio, afinal as pessoas não têm o costume de ler notícias de forma apurada. Quando informou que processaria o responsável, houve quem avaliasse como exagero. Até hoje lhe acusam de ter chorado pelo tal bandido.
Jean já teve uma publicação em seu nome, com aspas e tudo, em que defendia a pedofilia numa suposta entrevista para a CBN.
Tais episódios aumentam de forma drástica o preconceito que muitos carregam em torno das temáticas relacionadas aos direitos humanos (que no clichê conservador “só servem para defender bandidos”).
Os inimigos de ambos também são similares. O mesmo Bolsonaro processado por Maria do Rosário por apologia ao estupro é o que Jean classifica como “caricatura de um deputado nostálgico de tempos sombrios de ditadura e repressão às liberdades”. O mesmo Feliciano, que segundo Rosário “incita o ódio, a intolerância e o preconceito”, é o que foi acusado de incentivar a produção de vídeos falsos ligando Jean Wyllys e outros parlamentares à defesa da pedofilia. O mesmo Eduardo Cunha que declarou que arquivará o processo de Rosário contra Bolsonaro, é que fez Jean declarar que os próximos 2 anos na Câmara serão de “trevas”.
Na política não há unanimidade, mas certamente há uma representação desproporcional dos diversos setores que compõem a sociedade.
Entre bancadas religiosas e empresariais, fica o desejo de que surjam novos Jeans e novas Marias para mostrarem nos espaços de poder a diversidade de tipos e discursos que compõem a sociedade brasileira.
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