Lugar de travesti

Foto de Tim Curry no filme The Rocky Horror Picture Show
Podia começar com aquele papo do "você se acha preconceituoso?" e ir evoluindo a questão, mas decidi ir direto ao ponto: você contrataria uma travesti para ser babá do seu filho?

Tenho certeza que alguns poucos vão responder sim, outros ficarão no cômodo talvez, mas a grande maioria vai engasgar, ficar tensa e se possível mudar de assunto.

Pois é meu povo, estabelecemos aqui um terreno pantanoso, em que a homofobia sua e minha pode ser testada.

E não adianta começar a ladainha do "não sou homofóbico, MAS...", a única informação presente nessa postagem sobre a suposta babá é que ela é travesti. Se você pensou algo como "vai depender do caráter", já é o preconceito agindo em suas ideias, afinal não era uma discussão sobre caráter.

Eu sei que a leitura está meio dura, e que nesse momento seu cérebro tenta formular uma série de argumentos para defender seu ponto de vista, desde a desqualificação do autor (eu) à defesa de um interesse maior (a formação moral de seu filho), mas antes de continuar, relaxa. Mexer com nossos preconceitos dói, mas nos ajuda a sermos melhores como seres humanos, então volte a si, e vamos adiante.

Tenho certeza que você ama seu filho (ou irmão, ou sobrinho, ou primo, ou vizinho... alguma criança próxima) e quer o melhor pra ele. Logo, é mais do que óbvio que você busque pessoas de bom caráter para cuidar dele, seja como babá, professor, líder religioso, enfim.

Agora me responde uma coisa: como você separa as pessoas de bom das de mau caráter?

Assassinos, sequestradores, estupradores... são logicamente da turma do mal, mas você já conheceu (ou ouviu falar) de algum desses que se apresentem como tal? 

Pois é, na maior parte das vezes você julga (nós julgamos) as pessoas a partir de elementos superficiais. O papo, os gestos, a aparência, a maneira de falar, a forma de se vestir, a cor de pele, a origem... e consequentemente transmitimos esses julgamentos as pessoas que nos cercam. 

Se com adultos esses julgamentos pesam, imaginem o que eles causam na formação de valores das crianças.

E nesse sentido, um traço da educação autoritária que nos marca com muita profundidade é a tentativa de tornar invisível tudo que para nossos responsáveis (pais, professores) não presta.

Drogas fala-se no genérico, mas poucos são os que efetivamente explicam do que se trata, o que é, onde se encontra, as consequências de seu uso. É sempre a proibição do "nunca usem". Sexo, quando muito fala-se dos padrões, camisinha, gravidez, pro menino se tornar o garanhão, pra menina não ser fácil, mas dificilmente papos francos do tipo "você pode fazer o que você quiser, afinal é seu corpo". Não roubem, não matem, não fiquem tristes, não falem com estranhos... e sobre os travestis? o que se fala para as crianças?

Alguns já surgem na defesa: "elas não estão preparadas". Me digam com sinceridade: onde se preparam??

Eu digo. Se preparam quando veem na TV referências de piada, achando aquilo tudo muito engraçado. Se preparam quando acompanham notícias sistemáticas de violências contra travestis, pensando que talvez elas mereçam tais tratamentos. Se preparam quando passam em um viela durante a noite e veem alguma delas fazendo programa, entendendo aquele ali como seu lugar na sociedade.

Uma vez assisti a uma entrevista de uma travesti que trabalhava na noite. Ela dizia que mais de 90% dos clientes dela eram pais de família. Certamente pais das mesmas famílias que não admitem esse tipo de discussão com seus filhos. Aliás, será que as travestis veem de algum universo distante, ou são também em algum medida esses mesmos filhos criados com essa mesma educação que estamos falando?

Quando eu pergunto se você contrataria uma travesti como babá, não estou querendo criar uma polêmica gratuitamente. Minha intenção é fazer com que você pense até que ponto você não é também responsável pela realidade em que vivemos. Realidade essa em que uma travesti é tratada de forma absolutamente desigual em relação aos outros. 

E por isso, não vemos babás travestis, não vemos médicos travestis, advogados travestis, políticos travestis... para além de profissionais do sexo, no máximo cabeleireiras, maquiadoras... Que tal tratar desse assunto com seu filho?

Ele pode até não entender por completo essa história, mas garanto que o fato de começar a pensar que as travestis estão por aí será positivo, pois fará com que ele desenvolva sobre elas a noção de humanidade. O que certamente será determinante para que ele não vire um agressor, um violador de direitos ou o que muitos de nós invariavelmente nos tornamos, um hipócrita, que nega a elas o direito mais básico da vida: o de existir.
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