50 mortos, mas não só isso...

Por Jorge Alberto*

50 pessoas mortas e mais 53 feridas nos Estados Unidos. O mundo chocado, e nesse momento não há ser humano na face dessa Terra que não seja solidário (mentira!!!). Muitas perguntas sendo feitas, dentre elas: teria o assassino agido sozinho?

Vamos refletir.

Estamos no olho do furacão. É a hora de explorar o caso. Todos os noticiários falando a respeito. Por que o assassino assassinou? Era ligado a grupos terroristas? O que ele fez no mês, na semana, no dia anterior? O que os amigos dizem sobre ele? Tem família? E as vítimas, sofreram? A mensagem de um dos rapazes para a sua mãe ficaria bem na capa né? Detalhes, detalhes e mais detalhes. Essa semana só vai ter isso de pauta. Na próxima diminuímos. Daqui a pouco vai ser só mais um caso (dentre vários chocantes) em nossos registros. E a vida continua (dos que não foram vítimas diretas do caso), e lá vem festa, música, esporte e toda a sorte de diversões que pudermos ter.

Não é porque houve uma tragédia, que não devemos seguir. Devemos. Mas antes de olhar pra frente, é fundamental entender o que passou, e onde exatamente estamos, inclusive para que não se repita.
Não foram assassinadas 50 pessoas aleatórias. Eram LGBTs. Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros.

Não foi um crime comum. Foi um crime LGBTfóbico, inspirado pelo sentimento de ódio e intolerância à diversidade sexual.

Começar com esses conceitos é importante, pois coloca os personagens dessa história em seus devidos lugares.

Não se trata simplesmente de um louco passional, que decidiu de repente acabar com essas vidas, mas antes disso: um ser humano convicto de suas ideias.

Portanto, esse crime bárbaro tem origem na convicção de que a orientação sexual de uns é errada.
E assim, já respondo a questão do início: o assassino não agiu sozinho.

Estiveram juntos com ele os pais e mães que não conversam com seus filhos sobre sexualidade. Muitos acham que é melhor não tocar no assunto e outros simplesmente tentam determinar o que seus filhos serão. Nesse ritmo, tem pai expulsando filho de casa, espancando, renegando, simplesmente por serem gays ou lésbicas. Esses pais têm culpa no crime, mas não só isso.

Caminharam juntos com ele as escolas, os profissionais e todos os envolvidos em sistemas de educação que não problematizam a nossa realidade e repetem um modelo moralista e autoritário de sociedade. Sabe aquela aula que fala de um monte de teoria, mas que não discute o fato de LGBTs serem mortos cotidianamente? Ela ajudou nesse crime, mas não só isso.

Seguiram juntos com ele políticos e gestores públicos declaradamente homofóbicos. Desses que criam leis para impedir a discussão da diversidade sexual e surgem sempre com aqueles papos de que estão preocupados com o que as crianças vão pensar. Espero que as crianças nesse momento estejam pensando no quanto esse mundo precisa mudar. Também tiveram participação os que seguem caladinhos, dando suporte à escória da intolerância e ajudando nesse crime, mas não só isso.

Marcharam juntos com ele toda essa mídia tradicional, que abre pouquíssimos espaços em suas programações para a diversidade sexual. Entre tantos conteúdos banais e desinformativos, quantas vezes você viu uma pauta LGBT sendo tratada com seriedade? Quantas matérias acompanhou sobre jovens que se suicidam por conta do preconceito com sua orientação sexual? Quantos conteúdos tratando dos inúmeros tipos de violências que transexuais sofrem no dia a dia? Pois essa invisibilidade ajudou no crime, mas não só isso.

Participaram desse crime todas as religiões que pregam o ódio e a intolerância. Aqueles líderes (padres, pastores) que determinam quem você pode amar, ou ainda os que estabelecem as roupas que você deve vestir, os livros que deve ler, os lugares que deve frequentar, as pessoas com quem deve conviver... todos envolvidos nesse crime, mas não só isso.

Você, que prefere não conversar sobre sexualidade, que adora fazer piadinhas sobre a forma de ser do outro, que diz que não tem nada contra, desde que não se aproxime, que vota em gente intolerante, que segue religiões que oprimem LGBTs ou que simplesmente está chocado com esse crime, mas acha que não tem nada a ver falar de diversidade sexual. Você também participou dessa desgraça.

Ao entrar na boate, o monstro surtado estava sozinho, mas foram esses grupos que citei que deram força, ânimo, inspiração para que ele apertasse o gatilho.

E seguem dando força os que não abordam o episódio como um marco para o combate a LGBTfobia.

Que essas 50 mortes te façam tremer de indignação. Indignados de luto, mas indignados na luta pra que a humanidade não siga nesse triste caminho de desumanização.


*Jorge Alberto é jornalista
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